quarta-feira, 28 de fevereiro de 2007

BREVIDADE

Só dói no meu sono
Os alardes dos fogaréis e o desejo.
O escuro,
Das memórias confusas, os teus gestos -
Os únicos a que já perdoei.

Necessário que eu esqueça,
Tanto amor, tanta amargura,
Purgação de tudo o que gostamos,
Por não havermos dado.
E turva.
Pelo estiário do leito
A tua sombra -
Nada, nenhuma outra pessoa
É digna deste abraço.
Quem dera eu caminhar pelo espaço,
Andar pelos bosques, teu recanto mergulhar
Contigo em tua displiscência, ou te tocar,
Ao teu céu contigo, ao teu mistério...
Mas não há um cminho largo na noite.
Assim,
Claridade após claridade, um sol de açoite,
Atira-me do sonho nas areias,
Verdadeiras de onde diviso a lua fugidia.
Jamais a madrugada acomoda,
Nos braços relíquias de uma lua que amamos.
AMOR QUERIDO

Por haver perdido a esperança de beijá-la,
Por minha boca, ou abraçá-la,
Ou falar do meu amor sem fim,
O coração mandarim,
Vai à estalagem dela,
Vai tu, minha poesia,
À minha amada,
Vai aonde ela deita,
Dizer a ela quanto, quanto dói,
Amar e não ser amado,
Amar de boca fechada,
E coração latente, peito inflamado.
Beijai a ela risonhos,
O melhor dos sonhos que aquietam,
Beijem a ela, palavras de leve encanto,
Rumo aos confins, sem nome,
De seu corpo dormente, frente ao frio.
Lugar onde minha alma tem costume,
Andar, não sair de perto,
Do amor que é certo, numa direção,
E todo se escapa pelas minhas mãos.
Liberta que na paciência,
Da noite vai quietando indiferente,
Ao olho d’água que de transparente,
Faz de meus olhos dois rios,
Reluzentes
PAZ

Da renitente posição estratégica
Do homem mergulhado em trincheiras,
A levantar-se com os olhos e ver todo o seu derredor,
Apontado o arpão dizimador,
Recolhendo com gancho
Os pratos vazios, lambidos.
Lançado ao chão, sob qualquer passante,
Chamas ensurdecedoras, que queimam cinzas,
Erguendo a ira com guindastes pesados,
Esquecendo as visões que tiveram no espelho
Do último barbear.
Dos contra-apelos de paz ouvidos,
Como choro insistente de criança faminta
Dos lamentos dos viúvos
Que não dormem, sós.
Do abate em série de homens
Confundidos com formigas,
Dos sequiosos dentes de vampiros sedentos,
Da ignorância estampada nos olhos dos protagonistas
Da comércio de cacos de espelhos
E de pentes sem dentes,
Da desistência dos que,
Desnecessários, vêem em tudo ido,
Tão repulsa a alma em permanecer por aqui.
Da trêmula, medrosa, bandeira de paz,
Que já faltam mãos que a agarrem,
Da resolução de Deus, largar,
Sem comoção a postura burra e dura dos carnívoros,
Do vazio que já se anuncia perto,
Tetos que não guardam ninguém,
Braços de caniços,
Incapazes de irem à boca,
De cogitarem um abraço ao vento.
Talvez surgirá a paz
O sonhado território isolado,
A improvável situação que ninguém busca.
Talvez um mundo calmo,
No qual não se ouvirão passos,
Vozes não se identificarão.
E só ela reinará, absoluta,
Como se fosse a astuta,
E ambiciosa, que só sabe viver só.
ANJOS EXISTEM

Eu canso de ver urubus brancos
Pontilhando as caliças,
Como anjos que descem em bandos
A serem iguais ao diabo que atiçam.
Quando ameaçam as nuvem fechadas
Por uma porta que se abre inteira,
Eles se ouriçam, ruflam suas asas,
Pula o demônio no meio do terreiro.
E se dá o embate de olhos díspares,
De poder e glórias, os tantos animais
Os anjos pulam puxando a carcaça,
Do que ao inferno ia, santos a salvam.
Porque urubus não serviriam a anjo,
Se protegem mais, são mais disfarçados,
Eles, de branco, ficam, não se tomam de espanto,
Com o fole soprando fogo pela boca.
Eu já vi anjos vestidos de preto
Saindo das missas, chegando no enterro,
Dessas cândidas almas me protejo
Deixaram o inferno, antes e derradeiros.
Já vi urubus na cor própria, pretos,
Malhando o teto de terra e azul.
Anjos cobertos por mantos de anjos,
Guardando a vida com seus olhos nus.
PROVÍNCIA
Portas tarameladas, aferrolhadas, panos na mesa -
Ferro forjado, ipês saudosos, cidade eterna.
O cume é alto. O cais é largo! O teto é distante,
A aldraba enferrujado ninguém distingue,
O rio se contrai - o amor se afina.
O remédio já se alastrou no sangue, cruz alçada,
Roseiral dormindo, aceiros marcados, piquete pratico,
O rio desviado é baixo. A parte é alta,
O tronco é amplo. A parte é um atoleiro.
O barco iluminado; o rasto é claro: o mergulho, a sorte,
As várias lanças, os cinco pratos. A cidade exangue.
Vamos, pedem do outro lado.
Vem, gritam do lado de cá.
As chamas vão. Barulho fedorento,
Tranquilamente,
Fica a cidade.
DESAFORTUNADO

Eu conheci a casa de um desafortunado
Nela vivi quase toda minha vida,
Apanhei gravetos para os invernados,
Puxei gavetas e guardei retratos,
Um arquivo morto de mim retirado.
Eu andei por dentro da casa cumeada
Tropecei pelos atalhos, cadafalsos,
Troquei uma vida, que me dera, inventada
Por uma que eu vi de perto, andando enfalço
Fui o primeiro desordeiro do motim,
Não tive nunca uma gota de raiva, e foi assim,
Andando dentro e fora dos pântanos sem fim,
Que o que sou graças à sorte fora de mim.
A imaculada virgem pia, mãe Conceição,
O meu amparo, pra quem eu viro os olhos,
A minha amada o tempo todo cortando a rota,
Dos desamados, não me buscou, largou-me à mão.
Eu fui até o cultivo dos desgarrados,
E vi a festa da colheita das formigas,
E disso eu disse, com o coração e alma aflitas,
Eu não descanso, mesmo quando estou sentado.
E da lavoura que cupimzal tragava,
Umas espigas de milho bem debulhadas,
Pus o sabugo como mastro da bravata,
E lutei, com Conceição, nela amparado.
Olha-me Deus, no que escrevi,
Eu relatei a minha vida e Vos traí,
Era um segredo até o dia por vir,
Até cansar, e cansado, aqui cair.
ONDAS


O mar acolhe o rio.
O rio filho de amor por ele é abraçado.
O mar, o rio.
Ninguém mais identifica
Pelo sangue
Pelas palvras, mergulho
De cá pra lá. De lá.
Um gesto apoteótico no mundo...
Um filho, um pai.
Risonhos cambalhoteiam sobres os outros.
Tantos gestos azuis
Reis e reinados
Reis das diluídas sombras, fluem.
Coroas, cororas, flores e florestas.
Seu nome é lentidão _
Seu nome escorre _
E quieta o mar -
O rio fundo.
A tela do céu e azul.
Azuis de azuis.
Verdes mudando o branco.
O vento arqueja
Soprando acima e abaixo,
Pensamento, tempo, passando...
Animnais e restos, arfam rosas brancas.
Santos que olhamContemplam o sol morrer.
Santos e Santos
Deixam o mar escurecer.